Conto à tróis 2 – parte 3

novembro 7, 2011

Dando continuidade à série Conto à Tróis, escrevo o terceiro capítulo dessa crônica policial iniciada por O aniversário do Doutor Pantaleão, publicada no Blog do Cano (Matheus Espíndola), seguida do capítulo Em nome da lei, publicada no Blog Issoqueeufalei (Ulisses Vasconcellos). Deleitem-se com a conclusão desta misteriosa história:

Capítulo 3 – Vocês mataram o meu amigo

"Cretinos, vocês mataram o meu amigo"!

Reunidos na biblioteca estavam, frente a frente, os principais suspeitos da morte do Dr. Pantaleão. Um sobrinho fanfarrão, uma ex-garota de programa (com status de ex-amante) e um prefeito com o cargo ameaçado em vésperas de ano eleitoral compunham um respeitável elenco de suspeitos.

No salão de festas já especulavam sobre a causa mortis e sobre o causador do óbito. Um murmurinho tomou conta do espaço e acusações escapavam. Além disso, ouvia-se frases como “onde você estava?”; “o que você estava fazendo há duas horas?”; “foi ela”; “foi ele”; “engraçado que ano que vem é ano de eleição”; “além de puta, assassina”; “tem gente que por uma herança seria capaz de tudo”; “agora esta eleição está no papo”.

Enquanto isso, na biblioteca, o Dr. Quaresma colocava todos os suspeitos à prova. Duda chorava e mal conseguia falar e a cada audição do nome do cadáver a bela moça caia em prantos. Cardoso aparentava nervosismo, mas se dedicou a consolar a ex-garota de programa, uma atenção muito suspeita – diga-se de passagem. O mais calmo de todos era o prefeito Sodré, que depois de tantas biritas adormeceu em plena biblioteca, mas antes murmurou: “não fui eu, eu só urinei no gramado”!

De repente o barulho na sala aumenta e Pascoal invade a biblioteca aos gritos de “o corpo sumiu, o corpo sumiu, o morto sumiu”, mas as surpresas não paravam. Aquela moça, aquele rapaz, aquele carinho todo e Pascoal não teve dúvidas sobre o que havia visto antes de notar o desaparecimento do amigo. Categoricamente ele afirmou: “seu canalha, sua vaca, vocês são amantes e mataram o meu amigo”.

Experiente e preciso o Dr. Quaresma esbravejou: “alto lá, Pascoal, que história é essa?” Duda caiu em desespero e Cardoso retrucou: “nunca faríamos uma coisa dessas, ele era praticamente um pai pra gente e, sim, eu e Duda estamos juntos, apaixonados, vamos nos casar, mas o meu bom tio seria o padrinho da nossa união, ele era testemunha do nosso amor”.

Enquanto Duda se debulhava em lágrimas, Pascoal, inconformado, cobrava a prisão do casal. Quaresma pedia silêncio e sentenciava: “apenas um cego não notaria que os dois estão juntos, mas não diria que foram eles”. O delegado tirava tanta convicção  baseado na intuição, na experiência e em um tique nervoso que sempre fazia a sua perna direita tremer diante do culpado de um crime e não era o caso diante dos três suspeitos.

O relógio já marcava 04 da manhã, os convidados, mesmo cansados, não arredavam pé do casarão e foi aí que a jovem Duda resolveu falar. “Fui amante do Dr. Adolfo, fui garota de programa e amo o Cardoso, sim, confesso. Hoje, mais cedo, eu e Cardoso estávamos no banheiro, fizemos amor e, quando eu estava a retocar o meu batom, Adolfo chegou com a generosidade de sempre, abençoou o nosso amor e jogou fora aquela maldita droga que há anos teima em me atormentar”.

As primeiras lágrimas escorriam dos olhos de Cardoso, que relembrou as últimas palavras que ouviu de seu tio: “vocês são jovens, bonitos, formam um belo casal e terão lindos filhos. Eu sei que pretendem se casar e seria de muito gosto meu ser o padrinho desta união, basta vocês garantirem que irão fazer feliz um ao outro. Rapaz, juízo, pois esta é uma garota de ouro. Curtam a festa, pois agora preciso tirar água do joelho e desçam bichinhos, que os encontrarei no salão”.

Inconformado, Pascoal gritava: “mentira, assassinos mentirosos, respeitem o meu amigo que não estão mais aqui para se defender dessas calúnias absurdas”. Quaresma já começava a se irritar com tal impasse, mas uma leve tremedeira em sua perna direita começava a surgir e ajudava a tranquilizar o homem da lei, que estaria diante de um desfecho próximo.

Junto a isso, começa a tocar o celular do prefeito, que totalmente atordoado, após tanta cachaça, questiona: “o quê? Se eu tô? Eu tô? Io Itu? Tu também rapaz, fala direito”! O prefeito recebia a ligação de um funcionário da prefeitura informando que um vídeo íntimo dele e de uma das moças contratadas por Cardoso acabara de cair do youtube. Sem entender nada o prefeito voltou a dormir, mas esta notícia também já havia se espalhado pelo salão. Foi aí que um dos investigadores do caso entrou aos berros: “senhor, senhor, senhor, o doutor precisa ver algo”.

Ao notar que se tratava de um vídeo de sexo, Quaresma se irritou, mas o investigador o informou que o filme havia sido gravado durante a festa e que revelava um diálogo que escapava do banheiro ao lado do quarto de onde saiam gritos e gemidos. Eram dois homens discutindo:

- Seu cretino, como pode? Eu a amo!

- Calma, do que estás falando?

- Eu a amo, era para ela ser minha e você a entrega a esse garoto que mal saiu das fraldas. Maldição!

- Mas ela não te ama.

- Dane-se tudo, não interessa, ela tinha que ser minha. E eu que pensava que você era meu amigo.

- Socorro, socor… socor…

O último grito de prazer da moça e do prefeito coincidiu com o abafado pedido de socorro de Pantaleão, morto por um amigo cuja voz não deixava dúvidas, era Pascoal. De volta à biblioteca, Dr. Quaresma deu voz de prisão e prendeu o surpreso e inconformado Pascoal, que foi levado esbravejando: “foram vocês dois, foram vocês, por causa de vocês dois o meu amigo morreu, foram vocês”!

Dias depois, exames comprovaram o que o vídeo ajudou a tornar evidente, Pascoal assassinou o seu amigo Pantaleão e Raimundo Sodré, prefeito de Pica-paus, seria pai de mais um rebento – o nono. E quanto ao corpo do morto, que havia sumido na festa? Os playboys o levaram para outra balada, na mesma noite, e o devolveram às 6 da manhã, como haviam se comprometido com Pascoal – sujeito que consideravam bastante.

Conto à Tróis – Parte 3

agosto 12, 2011

O que você vai ler abaixo é o desfecho, escrito por Matheus Espíndola e publicano no Blog do Cano, do conto Amor de coletivo. O fractal de abertura é de autoria do Ulisses, do blog Issoqueeufalei e o segundo ficou por minha conta.

Capítulo 3 – Já tive mulheres de todas as cores…

Fábio, inocente, havia anotado em um bloquinho algumas dúvidas que esclareceria previamente com o amigo pegador. “E se a Gláucia perguntar sobre a minha profissão? Especialista em Engrenagens Automotivas? Será que cola?”. Precisava dos conselhos do companheiro, mas só ouviu gozações. Ganhou até um comprimidinho azul de presente. Com a validade suspeita, mas ele, inseguro, acabaria tomando mesmo assim. “Não conseguirei me virar sozinho! Cabelo com gel ou ao natural? Convido a mina para o bar ou a levo ao cinema? Tento beijá-la logo após a primeira taça?”

Procurou, sem sucesso, por Nestor, na saída do trampo. Foi à recepção, ao banheiro, e ao lugar predileto do comparsa: a sala da imprensa, de onde brotavam estagiárias safadas e ociosas. Não havia mais tempo. Dispendeu o equivalente ao salário de um dia para voltar de táxi do serviço. O porteiro da fábrica foi quem informou: Nestor estaria embriagado, em um happy hour com as meninas do RH. Esquecera-se do combinado, ou não dera a mínima. Fábio pensou em chorar de desespero, mas foi covarde até para isso. “Cretino, me deixou na mão” – jogou no lixo o bloquinho.

Chegou em casa às pressas, banhou-se e perfumou-se como nunca. Saiu novamente e largou a porta entreaberta. Dali a alguns instantes chegaria o coletivo 003, dentro do qual, religiosamente, encontrava-se Gláucia, quase imperceptível no fundo do carro, pendurada ao celular, olhando sempre para baixo.

Antes de embarcar, o solitário pretendente resolveu experimentar uma dose de audácia. Aliás, quatro. Caprichadas, daquela aguardente vendida no simpático buteco da sua rua. Não bebia desde a adolescência. Desde então, também, não cortejara garota alguma. “Um pouco mais de coragem” – refletiu. Começou a cantarolar um samba do Martinho para ver se relaxava: “Já tive mulheres… de todas as cores… de várias idades… de muitos amores…”

Subiu no 003, como era de praxe três vezes a cada semana. Sentou-se na penúltima poltrona. Contou três, cinco, sete paradas do itinerário e ela não veio. Nem o cheiro singular da sua deusa desconhecida foi percebido. Insistente, Fábio desceu no mesmo ponto onde corriqueiramente ela desembarcava.

Teria ela se antecipado justamente hoje? “Alguém por aqui conhece alguma Gláucia?” – indagou, sem direção. Desorientado, andava em zigue-zague. À meia distância, sob a luz de um poste, foi enfim avistada uma senhorita, de costas, um metro e sessenta, cabelo marrom, na altura do ombro. E os inconfundíveis cachos nas pontas.

Curiosamente, a donzela, outrora de pele tão alva, estava ligeiramente… verde.

“Gláucia!” – cutucou, mas ela não respondeu. GLÁUCIA! GLÁUCIA! GLÁUCIAAA!!!

O próprio grito foi o que fez Fábio despertar. Ainda eram nove da noite e o rapaz se encontrava num balcão de buteco, despenteado e exalando um odor estranho. As quatro generosas cachaças, reagidas com a pílula de Viagra vencido, o haviam feito desmaiar, sonhar e delirar sem ter saído do lugar.

No seu celular, ainda tocava a mesma música em formato MP3. Durante o porre, Fábio havia acionado a função Repeat. Por isso, o timbre rouco e malandro de Martinho da Vila seguia entoando:“Procurei… em todas as mulheres a felicidade… mas eu não encontrei, fiquei na saudade…”.

Conto à Tróis – Parte 2

agosto 12, 2011

Capítulo 2 – A expectativa

Até que conseguiu dormir, mas como em seu trabalho, o adormecer veio em escalas. Hora veio em sonecas curtas, hora em cochilos breves, seguidos até de pescadas violentas que quase deslocaram o pescoço do pobre, apaixonado e ansioso Fábio. Entre esses inúmeros e contínuos intervalos sem sono o rapaz pensava – “será que amanhã tudo dará certo?” O moço tentou se convencer do contrário, mas o despertador trazia a realidade à tona: café, biscoito maisena, uma banana empurrada pela mãe, sonhos e muito, muito sono.

Tudo era como sempre, o ônibus não atrasou, mas estava lotado, não faltou o dinheiro da passagem, mas o trocador não tinha troco, faltou lugar para sentar, mas dessa vez a energia estava nas mínimas. Fábio não era de reclamar, nunca foi e não seria dessa vez, pois Gláucia estaria diante dos olhos dele em questão de horas, umas 15 horas, é verdade, mas quem sabe esse não era o tempo necessário para fazer com que o universo conspirasse a favor dos dois?

No trabalho, Nestor já chegou animado e brincalhão – “e aí Don Juan? É hoje? Comprou camisinha? Quantas? Já escolheu o Motel? ahahahahahahahahaha” gargalhava o amigo em um misto de deboche, interrogatório e, de um modo bem cafajeste, incentivo. Fábio, envergonhado, apenas baixava a cabeça e dizia – “não me deixe mais receoso e apreensivo do que já estou, por favor”. Nestor apenas ria mais baixo e se desculpava pensando em novas formas de brincar com o jovem apaixonado.

Entre portas, ferramentas, soldas, instruções técnicas e normas de segurança, Gláucia era o que mais ocupava a mente de Fábio. Entre garfos e facas, arroz, feijão, batata cozida, alface, tomate e carne, também cozida, Gláucia, Gláucia, Gláucia, Gláucia, pimenta? “Não, obrigado! Será que terei coragem de falar com ela? E o que será que ela vai pensar?” Puxa vida, é justamente isso que ele não queria pensar, mas era justamente o que estava louco para saber.

No relógio já marcavam 17 horas e Fábio ia pra casa com a coragem de um kamikaze e o receio de um vestibulando de medicina…

Conto à tróis – parte 1

agosto 9, 2011

Foram semanas de negociações. Conversas até a madrugada envolvendo assessores, empresários e produtores. Altos valores. E um final feliz. Inicia-se agora um projeto inovador na literatura brasileira: Conto à tróis, o primeiro conto escrito a seis mãos. Uma história em três capítulos, cada um criado por um autor, com total liberdade para dar rumo aos acontecimentos. A consolidada parceira  dos jornalistas Ulisses Vasconcellos, do Isso que eu falei, e Matheus Espíndola, do Blog do Cano, está de volta e desta vez com a minha ilustre participação e colaboração. Divirtam-se.

Amor de coletivo

Capítulo 1 – Sapatos novos

Há um mês Fábio não ia mais ao trabalho com má vontade. Pelo contrário, aguardava com ansiedade a hora de tomar o ônibus rumo à fábrica. Passou a fazer a barba diariamente e comprou sapatos novos. Até aprendeu a passar a camisa direito. Fábio não gostava muito de ser montador de carros, mas o salário não era ruim para quem parou de estudar no ensino médio para ajudar a mãe nas despesas da casa. O sonho de cursar a faculdade de Ciências Sociais foi adiado sem data para ser retomado. O trajeto até a indústria ganhou nova cor quando uma moça diferente passou a pegar o mesmo ônibus que ele.

Fábio trabalhava em esquema de escalas, alguns dias da semana começando pela manhã e outros à noite. E eram nesses últimos que ele a encontrava. Ela era linda, pequena e branquinha, com longos cabelos pretos e bochechas rosadas. Aparentava ter 20 e poucos anos, corpinho com tudo no lugar. Ele, com seus 27, estava há alguns sem uma namorada. Ela sempre se sentava no mesmo banco, no fundo do coletivo, e falava ao celular todo o percurso. Ria muito. Carregava uma bolsa grande de couro. Todos os dias descia no mesmo ponto.

Nesse tempo dividindo o mesmo ônibus, tudo que ele descobriu dela era que se chamava Gláucia. Ela disse o nome algumas vezes ao atender ao telefone. Pelas conversas, não dava para sacar com quem ela falava. O tom de voz era baixo. Nem tampouco ele poderia imaginar se ela voltava para casa ou ia ao trabalho. A bolsa preta aumentava ainda mais o mistério.

Fábio ia à fábrica acompanhado de um colega, o Nestor. Fábio era caladão, tímido e gostava de ler. O Nestor era o extremo oposto – boa pinta, conquistador e brincalhão. Era o funcionário preferido de todos os superiores e já tinha se envolvido com praticamente todas as mulheres da empresa, das estagiárias às diretoras. Ele já havia percebido que o amigo não tirava os olhos da mocinha do último banco e não perdeu a oportunidade de fazer piada com a situação. Espalhou a história do amor platônico no setor de montagem e Fábio tentou negar, dizendo que era invenção. Mas era notório como ele ficava sem graça quando os colegas tocavam no assunto.

Uma noite em que Fábio não trabalhou, estava em casa lendo um conto de Edgard Allan Poe quando fechou o livro, pensou um pouco e decidiu que deveria levar adiante a ideia de conhecer a Gláucia. Apresentar-se para ela, falar qualquer coisa. Criou coragem e ligou para o Nestor, revelou que estava a fim da garota e pediu conselhos ao colega mais experiente no trato às mulheres. Nestor brincou com a situação, mas apoiou a iniciativa – poderia sim dar certo. Os dois trabalhariam no dia seguinte pela manhã, mas Fábio pediu que Nestor o encontrasse à noite, no ponto em que pegavam o ônibus para a indústria. Simulariam estar indo para um dia normal de serviço, mas Fábio desceria no mesmo ponto que Gláucia e, com jeitinho, abordaria a moça para uma conversa. Nestor não gostou do plano, no fim das contas ele sairia de casa apenas para uma volta de ônibus, mas aceitou fazer parte do jogo proposto pelo amigo.

Fábio lustrou os sapatos novos. E não conseguiu dormir aquela noite.

continua…

Texto postado inicialmente no Blog Isso que eu Falei – Ulisses Vasconcellos

Palavras mágicas

junho 8, 2011

Esquizofrenia é uma das palavras que mais tenho usado de uns tempos pra cá, ainda mais quando o assunto é o jornalismo ou a nossa tão distinta e bela sociedade materialista, de consumo.

- Protestar é errado;

- Filosofar? Nem se fala;

- Discutir é perda de tempo;

- Opinar é encher o saco;

- Não concordar com as coisas é ser anacrônico;

- Ver a vida por outra perspectiva é ser anacrônico;

- Defender outra conduta é ser anacrônico;

Deus do céu, já sei! Não preciso mais da palavra esquizofrenia, quando anacronismo é tão mais adequada à minha pessoa, pelo menos é o que dizem ou o que as entrelinhas deixam transparecer.

O problema vem de berço!

junho 1, 2011

É tudo uma questão de criação

Definitivamente nós vivemos em uma sociedade esquizofrênica ou, na pior das hipóteses, muito hipócrita. Muitos não pensam ser assim, mas (tomando por base a minha criação) somos educados para um mundo que na prática não existe.

Não sei quantos que lerão isso têm filhos, mas acreditos que todos já convivemos com crianças em algum momento da vida e já presenciamos o quão complicado é criar um ser que chega ao mundo como um HD vazio e que a cada instante recebe mais e mais dados sobre o que é a vida.

Mas meu texto é sobre a sociedade e não sobre como criar pessoas. Vivemos a aclamação da livre-iniciativa, do individualismo, da competição, do sucesso profissional, do materialismo, enfim, vivemos a celebração da vitória do sistema capitalista.

Quando o assunto é o mercado, os preceitos de Adam Smith são postulados inquestionáveis. Qualquer intervenção Estatal na economia pode ser considerada uma heresia e será duramente criticada por quem defende o sistema em que vivemos.

O paradoxo surge ao lembrar da infância e de outros preceitos – muito comuns na fala dos pais:

- Não pegue o que é do seu coleguinha e aprenda a dividir;

- Ajude o seu amiguinho e respeite a vez do outro;

- Não é possível ter tudo de uma vez. As coisas não acontecem na hora que a gente quer e de acordo com a nossa vontade. O mundo não gira ao seu redor;

- Cuide dos brinquedos para poder usá-los sempre. Após brincar, guarde tudo.

Pois bem, essa é a comparação que faço, já que a intervenção dos pais é fundamental para uma boa formação. Bons conselhos e principalmente limites constróem o caráter e possibilitarão boas condutas.

Com o mercado é diferente? A meu ver não. O Estado seria a mãe e o pai da economia. Seria ele o responsável por impor os limites capazes de construir um modelo econômico em que impere o respeito, a solidariedade e a responsabilidade.

Caso contrário – sem “puxões de orelhas” e “formas de controle” – crescerá um moleque rebelde, um jovem arrogante, um adulto prepotente, um senhor cruel, uma pessoa hostil, que no futuro irá tranferir tudo o que sabe para as suas crias.

Pensem nisso! Essa pessoa indesejável, sem limites e sem controle é a nossa sociedade, tá legal gente!

Exatas X Humanas

abril 4, 2011

Vira e mexe eu caio em um debate que parece não ter fim. De um lado o meu discurso socialista, defensor de um Estado que assuma o seu papel de gestor dos recursos e provedor das necessidades básicas para a dignidade humana. Do outro, o pensamentos prático, técnico, estatístico, frio, numérico, pautado na livre iniciativa, no mercado, no protecionismo de classe e no individualismo material.

Não quero aqui falar sobre o velho embate entre o Socialismo (EHHHHHH) versus o Capitalismo (UHHHHH), mas de outro antigo conflito e que parece sem muita solução: Ciências Humanas Vs. Ciências Exatas. Por que tantos antagonismos e a impressão de uma improvável concordância entre essas áreas de conhecimento? Até que nível o desacordo é necessário?

A minha vida inteira eu convivi com amigos que acabaram por seguir o rumo das ciências exatas e a cada encontro ou conversa mais séria torna-se mais agudo como os nossos pontos de vista e nossas perspectivas são divergentes. Prioridades, análises, focos interpretativos e a visão do mundo – no que pude perceber isso tudo extrapola o indivíduo atingindo o campo e a área de estudo.

Enquanto os meu amados e aclamados amigos engenheiros levam muito em consideração o custo benefício das coisas, noções como oferta e demanda e a autogerência do sistema, eu foco na ruptura com a supremacia do interesse privado disfarçada na bela denominação “Livre Iniciativa”.

Já ouvi falar que o capitalismo está na essência do ser humano, que o homem é ganancioso por natureza, que o mundo é assim mesmo, que o capitalismo é o melhor sistema – pois quem quer consegue seus objetivos – mas então por que reclamar das coisas ruins que acontecem se elas são provenientes do próprio sistema?

A corrupção é fruto do individualismo e do capitalismo, o desemprego é resultado da necessidade de uma demanda de desempregados que faz com que os profissionais se sujeitem a menores salários e se enfraqueçam como classe. Em busca de um lucro maior contrata-se menos; e quem será doido de arriscar o próprio emprego reclamando?

Provavelmente aparecerão exemplos e mais exemplos aqui tentando me justificar o contrário, posso até estar errado, afinal essas são opiniões de um rapaz de 24 anos de idade, mas penso que a gente não pode se basear em excessões, nem em distorções interpretativas para ignorar a gama de oportunidades que tivemos na vida se compararmos com o restante das pessoas.

Nunca fui rico, provavelmente nunca serei, nunca fui pobre, provavelmente nunca serei (assim espero), mas percebo que a dignidade não está à disposição de todos. Enquanto a ideia do custo benefício e noções meramente reformistas e não revolucionárias (partindo da ideia de desconstrução rumo a um governo de participação efetiva das pessoas) prevalecerem, as coisas permanecerão como estão – será que estão boas?

Em resumo meus amigos: EU AMO VOCÊS! Mesmo sendo das ciências exatas e com pensamentos coerentes e embasados, não consigo concordar com eles, pois para mim o conhecimento só é eficaz quando transforma, agrega e possibilita a cidadania (que vai muito além da ideia de direitos e deveres). É aí, justamente aí – neste ponto – que as ciências exatas, ao meu ver, mais pecam. No mais, vocês são maravilhosos!

Maicou…

Petckovic X Ana Maria Braga

março 1, 2010

 

"Rambo anticapitalista!"

Provavelmente você já deve ter escutado algo a respeito deste vídeo, mas se você não faz a menor ideia do que está por vir preste atenção. Fala-se muito de que a rede Globo manipula o pensamento da população brasileira e define normas de conduta e interpretação dos fatos – o que não é mentira – mas nem ela está imune à resistência e à crítica ao sistema que ela ajuda a perpetuar.

Os apresentadores, programas, convidados, discursos veiculados pelo canal de Roberto Marinho fazem uma clara defesa ao sistema capitalista, à democracia representativa, ao liberalismo econômico e à inquestionabilidade da ciência – ou seja, às instituições burguesas e ocidentais. Travestida de imparcialidade e verdade a ideologia da rede Globo se impõe e se reproduz inclusive sobre os outros canais de televisão e veículos de comunicação.

Isso não seria nenhum absurdo, se tais instituições não oprimissem e nem marginalizassem a maioria absoluta da população e nem nos conduzissem a padrões inalcançáveis de consumo. Além disso, estabelece como natural a não garantia dos direitos mais fundamentais, como se a desigualdade social e econômica fosse uma condição “sine qua non” da existência humana essencial para a coletividade se estruturar. 

Eis que um dia, como um alento, uma prova de que a revolução é possível e que nem os principais propagadores da mentira capitalista estão blindados e podem, internamente, sofrer duros golpes – foi o que aconteceu com a participação de Petkovic no programa da Ana Maria Braga. A apresentadora buscou sensibilizar os espectadores com infundados e levianos comentários e foi completamente rebatida pelo jogador que aproveitou para defender o socialismo.

Imagino o que deve ter passado na cabeça da loira, do louro, do diretor, dos câmeras, da produção – “socialismo na televisão aberta? Quem chamou esse cara? Muda de assunto, vamos voltar a falar sobre o Flamengo”. Para o atleta, os problemas de seu país são posteriores à abertura econômica capitalista e não à época em que a região vivia um regime socialista. Esta é a prova de que o sistema também será combatido por dentro e de que a revolução poderá sim ser televisionada em telas de plasma e LCD.

Tentei incorporar o vídeo, mas não estou conseguindo. Para vê-lo clique aqui

Feng Shui é o caralho!

novembro 18, 2009

Feng Shui Cueca e Meia, aqui você se encontra!

Tente viver um quarto de 2 m², ou 2×2 – como quiser – como eu faço? Agora, preencha-o com uma televisão, um computador, um amplificador, um violão, uma viola caipira, um contrabaixo, um ventilador, uma arara de roupas, uma cama, um mega guarda roupas e várias bugigangas fundamentais a um jovem solteiro longe da casa dos pais.

Neste cenário há quase um ano, várias foram as minhas tentativas de organizar as coisas, deixa-las de uma maneira mais agradável, separar o espaço de trabalho, o de lazer e o de descanso, mas, após uma semana, todas as configurações estabelecidas por mim para o meu quarto se mostram insustentáveis.

Tudo bem que desde novo eu já demonstro essa tendência por mudar os móveis de posição para alcançar a harmonia espacial do meu ambiente de sono, mas a efemeridade das minhas mudanças está extrapolando o bom senso, esgotando a paciência do vizinho de baixo e minando toda a minha criatividade.

Isso pode ter se originado talvez em 2001, quando em meu primeiro teste vocacional, eu, um aspirante a arquiteto, me deparei com o resultado ‘decorador de ambientes e interiores’ – se bem que a diferença entre isso e a arquitetura é praticamente insignificante, mas vida que segue.

Na universidade descobri que a constante insatisfação com o posicionamento da mobília era uma excelente tática contra a preguiça da minha querida Maria José – a secretária da república. A cada duas semanas eu estabelecia uma nova configuração espacial em meu quarto, o que a obrigava a varrer os cantos e retirar a poeira que em outros cômodos se acumulava.

Mais recentemente, não sei se pela internet, ou por amigos, ou por um episódio de ‘Everybody hates Chris’, descobri do que se tratava o tal do Feng Shui. Vulgarmente falando, este é um termo de origem chinesa cuja prática se refere ao equilíbrio de um ambiente a partir do posicionamento das coisas presentes nele. Puxa vida, faço isso há vida toda.

Quem sabe contratar alguma empresa para me dar consultoria em Feng Shui poderia me ajudar a viver melhor no meu humilde quarto? Pensando bem, levando em conta o valor de uma consultoria dessas e a minha pão duragem, vejo que, para todo bom pobre, o melhor Feng Shui se chama faxina completa – mãos a obra.

O império contra-ataca no dia da proclamação da república

novembro 16, 2009
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"O Imperador voltou?"

Neste domingo, 15 de novembro, como já é de costume, resolvi dormir até mais tarde – afinal, sábado não é dia de ir cedo pra cama. Passei um pouco do ponto e só fui despertar lá pelas quatro e meia da tarde. Mas eu ainda não estava saciado e resolvi cochilar por mais uns 5 minutinhos, porém mal sabia eu que estes poucos minutos se transformariam em horas do terrível pesadelo que irei lhes contar por meio deste post.

Bom apreciador da história que sou e aproveitando a data comemorativa, já havia preparado um texto sobre a proclamação da república – que este ano completou 120 anos. Iria questionar o golpe que a implementou, suas falhas, suas carências e os paradoxos que envolvem a república brasileira. Mas não é que sou surpreendido por gritos tais como “o imperador voltou, o imperador voltou, o imperador voltou!”.

Jornais, sites na internet, tweets, blogs, noticiários nas rádios e na televisão anunciavam aos quatro cantos a felicidade da família real que, eufórica, comemorava a chegada, a volta ao Brasil do imperador. Pronto, pensei eu, justo no dia em que celebraríamos o 120º aniversário da república no Brasil os monarcas reassumiriam o poder? Somado a isso, questiono como ficará a política brasileira nas vésperas das eleições presidenciais?

Fudeu! Já era! Vou rasgar meu título de eleitor. Tanto faz saber se será Aécio, Serra, Dilma, Marina, Cleverson ou mesmo Thiago que irão guiar o Brasil rumo à prosperidade. O imperador havia voltado e, pelo que dizem, já conquistou o carinho e a admiração do povo carioca – fundamental para o restabelecimento do governo imperial e da cidade do Rio de Janeiro como capital brasileira.

Resolvi andar pela cidade e saber um pouco mais sobre o que estava acontecendo, afinal de contas eu precisava saber a melhor maneira de me portar neste novo governo. Eis que do nada me deparo com uma placa que indicava “Morro do Imperador” e penso que tudo aquilo que vi na TV não se tratava de mera ilusão. Continuo a caminhada por Juiz de Fora e o que mais vejo são estabelecimentos ligados à família imperial – “Vixe!” 

Como disse no início isto foi apenas um pesadelo influenciado pela transmissão da partida entre Náutico e Flamengo que na TV ligada e com o volume nas alturas inspirava o meu sono. Mas, pesadelos à parte e bem acordado, penso que a república brasileira está longe de ser considerada um sonho feliz, por sua vez o povo brasileiro parece estar em um sono profundo e esperando para acordar. 

A família real recepciona o novo imperador…


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